quinta-feira, 7 de maio de 2009




DE GRÃO EM GRÃO
Dois terços da área do cerrado já estão afetados, mas ainda é possível preservar.

Durante muito tempo, o cerrado brasileiro foi desprezado como se não passasse de um imenso terreno baldio salpicado de árvores retorcidas, no centro do país. Não despertava atenção como área potencial de desenvolvimento econômico, muito menos como um ecossistema digno de preocupações preservacionistas. Em apenas três décadas, o cenário mudou. Na década de 70, cientistas brasileiros criaram técnicas de correção do solo ácido e introduziram novas espécies de gramíneas para alimentar o gado. As duas iniciativas desencadearam uma revolução na região. Hoje, 42% da soja e 32% do milho nacionais são produzidos no cerrado e 40% do rebanho bovino pasta por lá. Essa expansão da agropeuária provocou degradação ambiental e, por tabela, colocou o cerrado na pauta das inquietações dos ecologistas. O desenvolvimento econômico, afinal, está matando o cerrado? O primeiro estudo sobre a degradação da região, que acaba de ficar pronto, traça respostas. Feito a partir de fotos de satélites, o trabalho do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Inpe, revela que, da área original de cerrado, correspondente a 22% do território nacional ou à soma de dez países europeus, apenas um terço permanece intacto. Outra terça parte foi degradada por pequenos agricultores ou cortada por estradas. "Os restantes 30% estão irremediavelmente perdidos, cobertos por cidades ou plantações", diz Eduardo Mantovani, autor do estudo. As regiões mais arrasadas, estão no Estado de São Paulo, que já abrigou 10% do cerrado e hoje conserva apenas 1%.


Exuberância da flora: beleza, alimentação, medicamentos e utilidade comercial Plantas carnívoras. Além do diagnóstico por satélite, o foco dos ambientalistas sobre o cerrado originou estudos inéditos a respeito de sua biodiversidade. "Por ser uma vegetação aberta, sempre se acreditou que o cerrado não tivesse espécies importantes, mas os resultados das pesquisas impressionaram", diz a bióloga Christiane Furnali, da Fundação Biodiversitas.
Das 1622 espécies de aves brasileiras, mais de um terço, 550, vivem no cerrado. Grande parte dos maiores, mais bonitos (e também mais ameaçados) mamíferos da fauna nacional habita seus campos: a onça-pintada e a parda, o lobo guará, a lontra, a ariranha, o quati, o cervo pantaneiro. Apenas na região do Distrito Federal, a mais esmiuçada, foram cadastradas 1000 espécies de borboletas, trinta de morcegos e 550 de abelhas. O cerrado também é rico em diversidade vegetal. Além de flores exuberantes, como bromélias, orquídeas e até espécies carnívoras, a região guarda variedades silvestres de plantas cultivadas comercialmente, como caju, mandioca, abacaxi, caqui, goiaba, amendoim e guaraná. Essas variedades são fundamentais para os trabalhos de melhoria genética que permitem desenvolver tipos mais resistentes a pragas. Cerca de oitenta plantas nativas, como, o pequi, são usadas na alimentação. Algumas têm potencial para a produção de adoçantes. Vinte espécies de árvores produzem cortiça e alguns arbustos têm quantidade suficiente de tanino - usado no curtimento de couro - para ser comercialmente viáveis. Mais de 100 espécies têm propriedades medicinais conhecidas.

Ema Veado Ozotocerus bezoarticus Aves e mamíferos ameaçados de extinção: apenas 1% do cerrado está protegido. Faltam parques - Embora a totalidade da biodiversidade da região ainda esteja longe de ser conhecida, ninquém duvida que a destruição do cerrado é uma desgraça que precisa ser evitada. E pode. Nem o conservacionista mais ferrenho, no entanto, imagina que seja necessário barrar a expansão da agricultura e o crescimento das cidades. "A superfície do cerrado não precisa ser toda ocupada para gerar um excedente agrícola. Se todas as terras fossem plantadas, além de extinguir a fauna e a flora, correríamos um risco muito grande de degradar o solo e provocar erosão", explica José Roberto Peres, diretor de pesquisa da Empresa brasileira de Pesquisa Agropecuária, Embrapa. Segundo seus cálculos, usando técnicas modernas de manejo do solo, em uma área de 50 milhões de hectares, cinco vezes a atualmente cultivada no cerrado, é possível decuplicar na produção, chegando a 300 milhões de toneladas de grãos por ano. O importante para que os bichos e plantas sobrevivam não é frear o avanço econômico, mas manter virgens áreas representativas da diversidade vegetal e animal, com a criação de parques e reservas. Isso, no entanto, está longe de acontecer. Apenas 1,5% do cerrado está protegido. É pouco em relação à média do território nacional, que tem 2,6% da área preservada, e menos ainda em comparação com a Amazônia, com 3,8%. Novos parques, aliados ao cumprimento do atual código florestal, preservariam a vida selvagem do cerrado. Pela lei, os fazendeiros são obrigados a manter pelo menos 20% das propriedades como reserva e preservar a vegetação ao longo dos rios e cursos d`àgua, além das encostas com mais de 45 graus de declividade. Ainda há tempo de salvar o coração do Brasil.

Alexandre Mansur - Veja 12 de agosto de 1998.

fonte: http://www.webspawner.com/users/cerrado/

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